Cap’tulo 01 Desde 1971, Francisco Brennand vive isolado numa olaria herdada de seu pai. A œnica testemunha de sua jornada solit‡ria Ž o di‡rio que come�ou a escrever aos 22 anos. Quando propus a Francisco que me deixasse document‡-lo, ele me disse que tinha pouco a falar. Foi atŽ sua escrivaninha, destrancou a œltima gaveta e me entregou o seu di‡rio. FRANCISCO BRENNAND A Geografia Prefigura a Hist—ria, Euclides da Cunha Recife amanheceu sem sol naquela manh‹ quente de dezembro. Na hora marcada, Francisco estava a postos no Marco Zero da cidade para a inaugura�‹o do seu Parque de Esculturas. O lugar estava vazio. N‹o havia conhecidos, nem autoridades locais. Ele tirou um pequeno caderno do bolso e se dirigiu ˆ beira do mar. Ao som das ondas arrebentando sobre as pedras, Francisco pronunciou o seu Serm‹o aos Peixes. Ainda molhado da ‡gua do mar, Francisco entrou no primeiro t‡xi que avistou. Seu destino, o bairro da V‡rzea do Capibaribe. Uma longa estrada de terra batida separava a cidade do Recife do esconderijo do artista. "Parece o Egito!", exclamou o taxista. Francisco recebeu o coment‡rio como um elogio. N‹o tinha pir‰mides nem esfinges, mas a antiga f‡brica de cer‰micas do seu pai havia se transformado numa civiliza�‹o perdida. Tocado pelas palavras do homem, Francisco confessou que seu œnico desejo era ser cremado, e que suas cinzas retornassem, dentro de um ovo de cer‰mica, para o œnico lugar onde valia a pena viver. O seu Templo, a sua Cidadela, a Oficina Brennand. Eu passei quinze anos trabalhando aqui e n‹o tinha janela nenhuma, eu trabalhava sempre com luz artificial. Repentinamente, quando eu fiz uma reforma em 87, resolvi fazer essa janela. Essa janela me ligou com o mundo e, sobretudo, me ligou agora com o jardim, que Ž um jardim de Roberto Burle Marx. E, alŽm de tudo, ela me p›e em contato com a presen�a humana, porque atravŽs dessa janela eu vejo os inœmeros turistas e curiosos que passam por a’. E que, sem saberem, passam a ser observados por mim. Como pode acontecer tambŽm o contr‡rio. A esta hora, se algum turista estivesse aqui do lado de fora, n—s estar’amos sendo vistos aqui. N—s estar’amos vendo reciprocamente uns aos outros. Mas essa janela Ž espelhada. E, sendo espelhada, quem olha aqui v� a si pr—prio. E o que acontece? A maior parte das mulheres passa a’ e fica se ajeitando, e eu fico olhando. ƒ uma janela absolutamente indiscreta... Se ajeitam etc. Depois passam, ˆs vezes olham... Quando se trata de colegiais, eles olham tambŽm o espelho. N‹o h‡ nada mais sedutor do que um espelho. Mas acontece que a curiosidade da crian�a Ž maior ainda, e elas se aproximam da janela. Aproximando-se da janela, muito pr—ximas dela, j‡ com o nariz esmagado contra a vidra�a, conseguem olhar aqui dentro. Ent‹o Ž uma festa geral quando me descobrem aqui dentro. E eu posso ser muito receptivo a isso mesmo trabalhando, e posso n‹o ser. Ës vezes eu, sem dizer nada, me retiro e desapare�o. Mas eles ficam grudados a’... dando adeus, tchau etc. Quer dizer, essa Ž uma janela que n‹o deixa de ser necess‡ria sobretudo por conta da luz. Cap’tulo 02 Na primeira noite do ano, Francisco sonhou que seu obitu‡rio fora publicado no canto esquerdo da p‡gina 7 do Jornal do ComŽrcio. Sem foto ou letras em negrito. Poucas palavras digitadas com pregui�a e deboche. "Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand, nascido em 11 de junho de 1927, foi um ceramista pernambucano que viveu mais de quarenta anos isolado em sua Babil™nia de barro. O artista ganhou fama nacional ao criar uma enorme escultura f‡lica no Marco Zero do Recife, carinhosamente apelidada de 'Minhoc‹o de Brennand'. Francisco morreu na manh‹ de ontem, v’tima da enchente do Rio Capibaribe que deixou sua oficina submersa." Francisco abriu os olhos. Demorou alguns segundos atŽ entender que tudo n‹o passou de um pesadelo. Achou gra�a da fama de pornogr‡fico. Mas n‹o podia aceitar o pouco caso com sua Oficina e a aus�ncia de qualquer men�‹o sobre seus quadros. Semidesperto, desceu atŽ o ateli� e telefonou para Deborah. Suplicou que a ex-mulher publicasse seu di‡rio depois que ele morresse. S— assim o mundo poderia finalmente conhecer a sua paix‹o maior pela pintura. Para acalm‡-lo, Deborah recitou o poema que havia escrito naquela manh‹. Os treze versos de Deborah diziam mais sobre a solid‹o do que as mais de mil p‡ginas do seu di‡rio, que bradavam contra o esquecimento. Uma carta escrita na casa-grande do Engenho S‹o Jo‹o da V‡rzea, no dia 21 de dezembro de 1978, dirigida a mim. Francisco, Voc�, o arque—logo que desenterrou pe�as de milenares feitios, e deu ˆs mesmas o seu car‡ter pessoal, no poderoso cadinho do seu cŽrebro criador, teve a inspira�‹o de conservar, ora escondido, ora bem vis’vel, o erotismo, que n‹o morre enquanto existir o homem sobre a terra. Voc�, que transformou num templo de arte pl‡stica essas velhas e desmanteladas ru’nas de uma antiga olaria, hoje, um verdadeiro e inigual‡vel museu. Agora, em Camocim de S‹o FŽlix, esse pequeno para’so, de bel’ssima paisagem, onde impera o sil�ncio, t‹o prop’cio para a criatividade, volta voc� a pintar. E que pintura! A meu ver, a melhor que tem sa’do da sua palheta. Pintura cheia de for�a, de maravilhoso colorido. N‹o sendo eu um expert, tenho a sensibilidade para sentir o que verdadeiramente Ž belo. Estou certo - n‹o sou um vidente, mas acredito no seu grande sucesso como pintor: quem sabe! Talvez um dos maiores do Brasil. Agrade�o o seu valioso presente, ir‡ encher de mœsicas divinas esse silencioso e vazio casar‹o. Um beijo, muita paz, Papai. Ele era um visitante n‹o digo cotidiano, mas a œnica pessoa da fam’lia que me visitava. Meu irm‹o, ˆs vezes, aparecia quando solicitado. Quando eu encrencava em matŽria de fornos sobre os quais eu desconhecia os detalhes tŽcnicos. Meu pai, porŽm, vinha por curiosidade, talvez mesmo por paix‹o pela arte, para tentar descobrir mais alguma coisa do que ele j‡ sabia profundamente a respeito da cer‰mica. Ele teve uma influ�ncia decisiva na minha forma�‹o. Capitulo 03 Num domingo de janeiro, dia em que a Oficina parece um deserto, Francisco anda sem pressa pelas alamedas do Templo ao Ovo. Espera o forno esfriar para verificar o nascimento de mais um abutre. Desconfiado de sua pr—pria obsess‹o, Francisco Ž tomado por pensamentos estranhos. Com tantos bichos, parece que voc� quer transformar sua Oficina em uma arca de NoŽ. Esses seres t�m poderes, s‹o perigosos e um dia v‹o fazer suas cobran�as. Mais um abutre est‡ prestes a nascer. Nem mesmo os pensamentos nocivos de Francisco seriam capazes de destruir seu fasc’nio. A escultura entrou med’ocre no forno e depois de sucessivas queimas sair‡ com 10 mil anos. - Beleza, nŽ? - E tem o timbre met‡lico. - Voc� bate e tem a pancada de um sino. - Primeiro, ˆs vezes, pode sair uma pe�a perfeit’ssima, mas se n‹o tiver esse timbre Ž uma pe�a condenada. Certamente, os seus dias de vida s‹o curtos, ser‹o curtos. Isso, eu chamo de Prometeu. E n‹o Ž por acaso que o nome Ž Prometeu. Basicamente, dentro do esp’rito grego, ele roubou o fogo. Pela primeira vez o homem passou a ser um demiurgo, quer dizer, com a possibilidade quase que de um ser divino, no momento em que ele era capaz de criar e, atravŽs do fogo, consolidar essa cria�‹o. Mas a ideia do p‡ssaro eu fiz mais como um elemento tot�mico. N‹o estava me preocupando absolutamente que ele al�asse voo. Ele era um vigia. Teria de vigiar o Ovo, o Templo do Ovo. E tinha esse ar hier‡tico, n‹o propriamente furioso, mas, pela sua impon�ncia, pela sua altura etc., e pelo nœmero deles que rodeia toda a Pra�a do Templo, eles passaram a ser vigilantes, s‹o guardas. Tudo isso se uniu num conjunto liter‡rio que teria redundado em nada, absolutamente nada, se eu n‹o tivesse conseguido corporificar essa ideia atravŽs de um desenho que chegou a esse abutre, a essa figura que cada vez mais se aperfei�oa, de pe�a em pe�a. Pequenos detalhes: aumenta um pouco a cabe�a, insiste-se um pouco mais na corcova, na eleg‰ncia do conjunto que serpenteia. Os primeiros deles que est‹o aqui no p‡tio s‹o duros, quase sem nenhum movimento. E os œltimos est‹o cada vez mais flex’veis como se fossem vŽrtebras, troncos de vŽrtebras que se encaixam e sobem. Essa pe�a faz parte tambŽm dos guardas. Talvez eu tenha mania de defesa. Ahhh, eu acho que isso aqui n‹o deixa de ser uma cidadela sitiada... amea�ada. E Ž necess‡rio ter os guardas, meus guardas n‹o t�m armas, mas s‹o guardas. Isso aqui Ž uma figura com capacete, voc�s devem ter notado que eles est‹o em cima do muro que rodeia toda a f‡brica. E isso fecha a cidadela... ... com todos os seus mistŽrios. Capitulo 04 A vis‹o Ž de um apocalipse particular. Um dilœvio fez o Rio Capibaribe transbordar, deixando a Oficina submersa. Tomado de p‰nico, Francisco tenta salvar os inœmeros cadernos do seu di‡rio. Enquanto junta suas mem—rias, n‹o percebe a canoa sendo levada pela correnteza atŽ o encontro fatal com o bico de um P‡ssaro Roca, que parte a canoa em dois. Poucos segundos e Francisco est‡ morto. Seu corpo desce lentamente atŽ o fundo do mar. Atr‡s de um grande mural de cer‰mica, depara-se com uma constru�‹o que lembra uma galeria de artes e of’cios. Abre a porta e reencontra todos os seus quadros. Francisco passeia desconfiado pelo lugar. Intrigado com o erotismo daquelas pinturas, ele se pergunta: "Quem era esse louco? E o que pretendia?" - Ah, mas ficou uma arruma�‹o not‡vel, n‹o Ž?! Pelo menos, agora, est‡ dando visibilidade aos quadros. îtimo. - E realmente me agradou muito essa arruma�‹o. Que era ca—tica, eu n‹o podia ver nem o que eu pintava, nem o que eu tinha feito. E agora, em qualquer visita que eu fizer a esse local, tenho ˆ disposi�‹o uma grande quantidade de quadros, pelo menos, vis’veis, nŽ? - Esse aqui Ž daquela sŽrie do Castigo. - Olha aqui. Olha aqui essa bengala, t‡ vendo? Aqui, no queixo da modelo. A muleta no queixo. - A cabe�a de um dos velhos que olha a Suzana no banho. E que se transformou na pr—pria Suzana. Ficou uma figura feminina. ƒ aquela cabe�a de papel‹o que tem l‡ no meu ateli�. - Isso foi pintado em 1959. ƒ muito antigo. Nessa Žpoca, eu execrava figura com car‡ter realista e n‹o queria saber de voltar ao academismo. Isso Ž uma coisa que aconteceu muito recentemente, a partir dos anos 80, quando eu vim para c‡ e comecei a fazer escultura. Ent‹o, a extrema liberdade da escultura me levou a um desejo de reencontrar a figura um pouco mais realista, um pouco mais acad�mica. E a minha aproxima�‹o com Courbet e Balthus se confirmou nessa Žpoca. Se eu tivesse continuado nessa linha, jamais iria satisfazer no meu esp’rito a vontade de ter um quadro realista. Eu tinha possibilidade de faz�-lo e n‹o queria. De repente, resolvi que queria fazer. Eu n‹o queria chegar ao exagero de dizer: como eu n‹o posso ter um Balthus na minha parede, pintei alguma coisa parecida. Nunca me preocupei com unidade, entende? Eu nunca me preocupei com unidade, porque a sensa�‹o que eu tenho Ž de v‡rios, de v‡rios. N—s somos v‡rios ou n—s somos todos a mesma coisa. Confundimo-nos. E essa coisa de voc� ser cada vez voc� pr—prio, inconfund’vel. Voc� diz: aquele Ž um inconfund’vel. Come�am a dizer isso da minha escultura. Quando n‹o gostam dela Ž muito f‡cil dizer "aquele Ž um Brennand". Sabe por qu�? Porque eles n‹o gostam. ƒ f‡cil voc� dizer do que n‹o gosta. Agora, do que gosta n‹o Ž t‹o f‡cil assim, tem que pensar duas vezes. Mas, o que n‹o gosta voc� acerta logo. Quem n‹o gosta da minha escultura diz: "Isso a’ Ž um Brennand! Entende?" Ent‹o, parece que a escultura tem mais unidade e Ž mais facilmente reconhec’vel como um Brennand; a pintura, ao contr‡rio, Ž dispersa. No entanto, eu n‹o fa�o nenhuma quest‹o de unidade entre a cer‰mica e a pintura, nem de unidade entre os diferentes quadros que pinto. Eu fa�o quest‹o de fazer aquilo que desejo fazer no momento. E, se eu acertei, tanto melhor. Esse Ž o grande problema: acertar ou n‹o acertar. - Esse faz parte do conjunto do Lobo. ƒ uma figura que se divide em duas partes: o rosto do lobo e um pouco de uma caveira, do lado de c‡... a morte. - Que coisa, hein?! ƒ bom! Essa mulher tinha exatamente esse corpo. Eu n‹o exagerei, n‹o. Essas proemin�ncias. Ela est‡ com o chapeuzinho vermelho, mas n‹o tinha nada de Chapeuzinho Vermelho. Capitulo 05 Francisco passou a manh‹ trancado em seu ateli�, ˆs voltas com um quadro que n‹o conseguia terminar. O estudo j‡ estava parecido com a modelo. E ele n‹o via nada a acrescentar. Mesmo assim, n‹o ficou satisfeito. O quadro foi pintado sobre papel branco, e ainda precisaria de muitas sobreposi�›es atŽ que a figura despertasse o interesse de Francisco. Se pudesse, passaria o quadro no forno. Uma s— passagem e as chamas o salvariam. A pintura ficaria t‹o bela e misteriosa quanto suas cer‰micas. - H‡ duas proemin�ncias: aqui no pesco�o e aqui. O que Ž que ser‡ essa? N‹o ser‡ o pesco�o longo que ainda estufa? Ou ser‹o os peitos contidos por esse cilindro estranho? N‹o Ž corpo e n‹o Ž nada. Na cer‰mica, eu tive a possibilidade de identificar uma escultura com um vaso. Aqui est‡ um vaso, n‹o Ž?! Aqui est‡, com as suas asas e tal. E daqui para c‡ Ž um passo. Se eu quiser, boto uma cabe�a aqui e tenho uma mulher! Coloco uma cabe�a aqui, isso Ž uma mulher. Em termos de cer‰mica. Em termos de pintura, eu n‹o fa�o isso, mas em termos de cer‰mica fa�o o que quero. A’ eu sou picassiano. - Olha que coisa estranha, isso que escorre... Essa abertura que sangra. Que pode ser um outro olho, porque, se voc� olhar de perfil, isso passa a funcionar como olho. O olho est‡ aqui, visto de frente, mas se voc� olha essa figura de perfil, esse Ž o olho. E eu presumo que do lado de c‡ n‹o tem olho nenhum... n‹o tem. Uma coisa, ˆs vezes, me divertia muito: como eu parto de um pressuposto de que sempre trabalhei em superf’cies, eu, por pura brincadeira, pura jocosidade, fazia uma figura, e a pessoa, evidentemente, rodava em torno da pe�a para olhar como ela era por tr‡s, para se surpreender que era exatamente igual a como ela era pela frente. Isso quer dizer que n‹o tinha frente e costas, a figura se repetia. Por exemplo, a mulher tem quatro peitos, mas n‹o tem costas. Ela tem exatamente o que tem pela frente; voc� rodeia e ela Ž igual pelas costas. E eu n‹o faria isso em pintura. Picasso fez mulheres retorcidas de frente e de costas ao mesmo tempo. Ele fez desenho e v‡rias pinturas nesse sentido. - Essa pe�a aqui Ž rar’ssima sob o ponto de vista de realiza�‹o cer‰mica. Ela parece tambŽm... a matŽria dela parece de uma concre�‹o marinha, uma pe�a que foi esquecida no fundo do mar e encontrada sŽculos depois. Ali‡s, ela tem qualquer coisa de figuras que voc� arranca de urnas funer‡rias, como se estivesse acomodada em um lugar qualquer e voc� arranca. Tem um pouco de figura fetal tambŽm, nŽ? Ela tem um rosto de feto. E n‹o h‡ grandes preocupa�›es realistas, por causa da propor�‹o do bra�o; voc� n‹o sabe se isso Ž bra�o ou perna, que foi puxado para cima. Se Ž um cabelo ou capacete. - Aqui, uma coisa... uma sucess‹o de n‡degas ou de pernas inchadas que terminam com a cabe�a de um bicho, tambŽm sem nenhuma preocupa�‹o real’stica. - Figuras, ˆs vezes, atŽ de certa forma caricatas, que eu n‹o me permito pintando. - Figuras mascaradas, nas quais s— aparece a ponta do nariz. - Rodin n‹o fez um pensador, que Ž aquele homem com a m‹o no queixo? Esse aqui Ž o meu pensador. O pensamento dele est‡ todo nessa enorme, imensa testa. - Ës vezes figuras... uma abordagem: ser‡ que eu, como pintor, iria abordar por acaso... fazer a figura de Dante? Dante Alighieri? Eu n‹o teria coragem de tentar fazer um retrato de uma pessoa que eu n‹o conheci. Mas fiz essa figura e batizei de Dante. E Ž um retrato de Dante para ninguŽm botar defeito! ƒ uma figura esquisit’ssima ao mesmo tempo. Capitulo 06 ƒ segunda-feira de Carnaval. Uma marchinha pode ser ouvida bem longe dali, abafada por uma estranha e putrefata brisa marinha. Francisco perambula pelo Beco onde costuma fotografar suas modelos. Se recorda de Mara, sua Chapeuzinho Vermelho favorita. Faz vinte anos que a modelo n‹o o visita na Oficina. Consumido pela mem—ria de Mara, Francisco decide remexer gavetas antigas. Reencontra as fotografias de Suzana no banho, da Viœva, de LucrŽcia, da Cega, da Italiana e, finalmente, as de Mara. ƒ como se todas elas estivessem ali. Ele tem vontade de pintar uma cena de Mara, mas as m‹os n‹o o ajudam, desconfiadas do papel em branco e de suas lembran�as. - Quase como se fossem silhuetas de fantasmas. E um pouco animal. H‡ patas, e n‹o pŽs. Acontece que s‹o dem™nios. - Por que Ž que eu fiz uma patinadora? O tra�o Ž o mesmo. Enquanto os outros est‹o se referindo a coisas, a bichos, a plantas, a peixes, esse aqui pega uma mulher, com extrema liberdade, porque nessa Žpoca eu contornava as figuras com vistas de fazer murais. - Gosto disso. Olha a’, voc�s descobrindo coisas... - Um bom quadro Ž aquele que o surpreende depois de um longo afastamento. Voc� n‹o sabe como pintou, nem como conseguiu, e... aconteceu quando eu vi essas serigrafias. Inclusive essa, mesmo com essa simplifica�‹o enorme, porque hoje eu procuro uma linha muito mais realista que me tolha os movimentos. Agora voc� veja a liberdade dessa figura com essas pernas... uma perna Ž enorme, a outra Ž curta, mais grossa. Do ponto de vista de perspectiva, a perna que est‡ l‡ deveria ser mais fina do que essa, mas isso n‹o contava, o que importa Ž o movimento, esse movimento, n‹o Ž?! Quase como se fosse um bumerangue. - A liberdade dos peixes, entre outras coisas, o extraordin‡rio colorido. Isso ainda me surpreende mais! Porque, aqui, eu j‡ estava usando cer‰mica e sabia que tinha que usar tons terrosos e uma palheta muito baixa, e isso corresponde ao que... na verdade, ao que eu desejava. - Esse Ž um original. Assinado FB 74 - eu assinei durante muitos anos as iniciais e continuo a assinar nas esculturas. O FB que existe nas esculturas, a assinatura, tem a escala da pe�a, conforme o tamanho da pe�a, ele cresce. E ao mesmo tempo funciona como um ornato. Como as esculturas s‹o despidas de desenhos, elas s‹o simplesmente volumŽtricas, sem os seus volumes, a’ utilizo a assinatura e a data como elemento ornamental. Quando eu assinava a pintura propriamente dita e pintura figurativa, eu era uma outra pessoa, com outros prop—sitos. Talvez atŽ uma pessoa menor, n‹o sei. E essa pessoa menor Ž Brennand, n‹o FB. O Brennand Ž uma pessoa misturada com literatura, com mulheres, e Ž... Se eu fizesse o retrato de uma mo�a do jeito como eu pintava, ela iria reclamar. J‡ uma coisa mais realista, elas n‹o reclamavam. No entanto, n‹o estou arrependido. Mas talvez esse reencontro com essas serigrafias me solte um pouco mais a m‹o, num sentido de simplifica�‹o da figura. Porque isso aqui n‹o tem nada a ver com fotografia. Acontece isso, n‹o Ž. N‹o tem nada a ver com fotografia. Isso aqui Ž a variedade que existe na natureza de frutos, de flores, de borboletas, de p‡ssaros. ƒ incr’vel! Com qualquer livro sobre hist—ria natural, mesmo que voc� n‹o fa�a olhando o modelo, tudo o que consegue fazer voc� n‹o faz mais do que a natureza. E n‹o Ž que seja c—pia da natureza, mas n‹o consegue fazer mais que ela. PorŽm, eu n‹o estava nessa Žpoca, n‹o copiava fotografias, nem me preocupava com isso. - Aqui, talvez uma coisa mais impessoal, entende? Que caligrafia magn’fica! Mas isso Ž quando eu tinha m‹o, nŽ?! S— esse FB vale... vale esse desenho. Surpreendente! Capitulo 07 Essa Ž a argila de Oeiras, uma argila rar’ssima, de caracter’stica, sobretudo, de resist�ncia ˆs altas temperaturas. E ela Ž uma argila laminada. Isso j‡ foi quebrado em torr›es e j‡ levou chuva, mas ela vem aos peda�os. Voc�, quando corta, ela vem como se fosse uma ard—sia... e ela tem sido utilizada por n—s h‡ mais de trinta anos e n‹o h‡ como modificar. Cap’tulo 08 EVA Hoje Ž dia 11 de junho. Como de h‡bito, Francisco passou seu anivers‡rio trabalhando na Oficina. Aproveitou o dia para colocar seu autorretrato em cer‰mica nos jardins da Accademia. De um lado da escultura, escreveu o ano de seu nascimento: 1927. Do outro, deixou um espa�o em branco. Helcir, seu assistente mais antigo, ficou horrorizado achou a escultura parecida com uma l‡pide. Francisco afirmou que seu desejo era permanecer ali para sempre. E confessou ao amigo que, quando seu pai lhe entregou as chaves da velha f‡brica, ele teve a certeza de que entrava ali para nunca mais sair. Tudo Flui... (Her‡clito) O futuro tem um cora�‹o antigo. (Carlo Levi) - Pai... - A remo�‹o dos escombros do telhado que estavam aqui no ch‹o, o conjunto todo limpo e, finalmente, a reconstru�‹o desse conjunto durou exatamente dez anos. Eu comecei assentando aquele painel em 1977 e terminei esse conjunto em 1987, com um mural l‡ na ponta que se chama "M‹e Terra". - Olha aqui. - AlŽm de tudo, alŽm da beleza da matŽria cer‰mica dessa pequena inscri�‹o mural, h‡ o significado desta frase. "Se partidos est‹o os vasos harmoniosos", isso significando que partidos est‹o os vasos gregos, ent‹o todas as coisas est‹o partidas ou em vias de destrui�‹o, mas assim mesmo o fim do poema n‹o Ž pessimista, porque ele diz: "Mas o barro e a ‡gua continuam a girar nos casebres dos oleiros." Quer dizer, essa renova�‹o da vida e da arte representa a eternidade. Eu s— lastimei um detalhe: o t’tulo desse poema era "Sinais". O que era altamente significativo, mas por uma quest‹o de composi�‹o, ou de pressa, quando eu compus a posi�‹o de cada uma dessas letras em rela�‹o ˆs pedras, eu me esqueci de calcular que tinha um t’tulo acima. Eu n‹o iria alterar por uma quest‹o de pressa. Trabalhei aqui como se tivesse uma data marcada para terminar. E trabalhava, como sempre trabalhei, com sofreguid‹o. E ficou faltando esse t’tulo que hoje eu lastimo que n‹o tivesse aparecido, porque era um t’tulo altamente significativo: "Sinais". Sinal, o sinal do tempo, o sinal do destino, da criatura humana e daquilo que ela cria. Cap’tulo 09 N‹o interrompam este sil�ncio! N‹o interrompam este sonho! O horror, o horror! Joseph Conrad. - Essas s‹o pedras de Ilh—s. Veja que coincid�ncia curiosa! Isso n‹o deixa de ser um templo funer‡rio. E eu encontrei isso numa casa funer‡ria. O dono estava mandando arrancar para substituir por um piso moderno. Quer dizer, isso aqui Ž um templo funer‡rio e este piso - esteve ligado durante centenas de anos. - E essa constru�‹o j‡ existia aqui. Isso era um galp‹o que havia perdido o telhado, e eu apenas n‹o reconstru’ o telhado lembrando que uma sŽrie de casas no Peru, numa regi‹o que n‹o chove, n‹o tem absolutamente telhado. E vou deixar isso descoberto para sempre. As esculturas v‹o receber sol e chuva, atravessar noites e dias, e v‹o durar para sempre se n‹o forem destru’das. S— a m‹o do homem pode destru’-las. - Eu gostaria de ler aqui a homenagem que fiz a Gauguin. "Uma homenagem a Paul Gauguin no centen‡rio de sua morte, acontecida no dia 8 de maio de 1903 na Ilha de Atuona, no ArquipŽlago das Marquesas - V‡rzea - 8 de maio de 2003." Isso aqui Ž como se fosse uma l‡pide. E aqui a figura dele, que, ali‡s, eu chamo de feiticeiro. Ele tem um quadro feito quase no fim da vida, talvez um dos œltimos quadros, que n‹o Ž um autorretrato, mas que chama de "O Feiticeiro". Eu fiz uma sŽrie de simbolismos, e aqui est‡ o poema de Coleridge: A Balada do Velho Marinheiro - The Ancient Mariner "Desde esse dia, em hora incerta, volta essa angœstia extrema; e se n‹o conta a hist—ria horr’vel o cora�‹o me queima." O outro diz: "Deus te proteja, marinheiro, de teu dem™nio atroz. Que angœstia Ž esta? Com a balestra abati o albatroz." - E aqui a figura... poder-se-ia perguntar: Por que envolvido por uma grade? Ser‡ que tem alguma coisa de evitar que as pessoas toquem na figura? N‹o, absolutamente. N‹o existe esse prop—sito. As pessoas podem tocar nessa figura o quanto quiserem. Mas porque, de certa forma, Ž t‹o controversa essa situa�‹o, esse problema de civiliza�›es e de culturas invadidas... Na verdade eu n‹o estou deificando... n‹o estou divinizando nenhuma cultura, nem demonizando outra; eu quero apenas dizer: era uma criatura humana e certamente n‹o est‡ no para’so, est‡ no purgat—rio. Isso aqui Ž a certeza de que ele ainda pena no purgat—rio... Atahualpa. Essa grade ainda o aprisiona, mesmo depois da morte, Ž um prisioneiro. - A mesma coisa acontece com Monctezuma, que nem ao menos est‡ dentro do templo. Ele est‡ a’ fora e olha o rio Capibaribe, que est‡ a n‹o mais do que 30 metros daqui. - E ali acima de todos, a homenagem final - que Ž essa a finalidade - a Gauguin. Com seu perfil de ‡guia, na realidade, incaico. E ele por v‡rias vezes faz men�‹o a essa sua ascend�ncia em que ele se chamava de selvagem, de b‡rbaro. Um selvagem pisando em solo europeu. - Enfim, era alguma coisa que eu n‹o poderia deixar de fazer, e isso conta a hist—ria de um artista que trabalhou parte do sŽculo XX e entrou em parte do sŽculo XXI, que passou de rasp‹o pela Europa e que est‡ falando n‹o - uma linguagem t‹o indecifr‡vel... talvez pouco incomum, um pouco dŽmodŽ, fora de moda, mas tem um sentido, eu tenho certeza de que isso ter‡ um sentido. N‹o Ž que eu v‡ corrigir nem salvar o mundo, coitado de quem pensar que vai salvar o mundo - vai ajudar a perd�-lo. Mas, de qualquer forma, foi alguŽm que n‹o foi indiferente aos fatos, ˆs dores do mundo. Cap’tulo 10 ƒ a œltima noite do ano. Francisco escreve no Di‡rio o relato de seu julgamento final. Um anjo o aguarda na entrada do Purgat—rio. Ele anuncia que Francisco Ž o novo profeta e lhe mostra o caminho do Para’so. Francisco nega a homenagem e implora ao anjo que o deixe retornar para a Oficina. "Por que voc� quer voltar se o apocalipse Ž inevit‡vel?", pergunta o anjo. "Ainda h‡ muito por fazer", insiste Francisco. O anjo exige que Francisco entregue o Di‡rio em troca de sua ressurrei�‹o. Francisco sabe que, ao entregar seus cadernos, estar‡ fadado ao esquecimento. Mesmo assim, escolhe aOficina. A œltima imagem que Francisco v� antes de sair do Purgat—rio Ž a de seu di‡rio sendo consumido pelo fogo. ƒ meia-noite. Francisco fecha o Di‡rio e o coloca sobre uma pilha de cadernos em sua escrivaninha. - Senta aqui, Hermila. Como Ž o nome de sua m‹e? - CŽlia. - E quem foi que decidiu seu nome: Hermila? - Minha m‹e. Tinha uma cunhada da minha av— chamada Hermila, a’ ela faleceu, acho que meses antes de eu nascer. - Hermila... Deixa eu botar um filme aqui nessa m‡quina. Ainda tem aqui, eu acho que um ou dois. Vira de frente. Pode ficar com a m‹o, mas n‹o t‹o separada. Assim mesmo! Voc� est‡ fazendo um pouco de careta por causa do sol, n‹o Ž? ƒ o excesso de claridade - Mas eu vou tentar... - Voc� vai tentar nada! Fique como voc� quiser. Eu n‹o sou diretor de cinema que exige das atrizes. Aqui est‡! - Dessa eu gostei. - Por que a’ t‡ saindo voc�, n‹o Ž? Isso Ž uma coisa que me intriga... Eu gostaria de ter a liberdade de ousar mais, entende, Hermila? A forma feminina me seduz muito... E quando eu pinto... eu fa�o parecido. A narra�‹o do filme Ž baseada no Di‡rio de Francisco Brennand, iniciado em 1949 e que ele escreve atŽ hoje. Cap’tulo 11 crŽditos